quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

XINGAMENTO CULTO

A língua portuguesa é, mesmo, intrigante. Arma-nos com uma série de ferramentas práticas para o dia-dia e, aquele que souber manejá-las, passa-se, invariavelmente, por culto e entendido, abrindo-se as portas dos bons relacionamentos, ainda que com as piores intenções. E uns desses utensílios são os sinônimos - úteis, inclusive, na admirável arte de xingar o próximo. Para quê, por exemplo, chamar alguém de imbecil e inútil se é muito mais glamoroso usar, respectivamente, obtuso e sáfaro - palavras que praticamente cheiram a elogio (pelo menos até que o ofendido resolva procurá-las no dicionário; algo impensável para um brasileiro típico)? Imagino um diálogo entre duas pessoas que não se vão muito com a cara:

_ Sabe, jovem mancebo? Considero-te um grande pascácio!
_ Oh, puxa! Obrigado...
_ Nunca me presenciei ao lado de um sujeito tão conspurcado e histrião como você! Creia-me!
_ Oras, amigão! Assim, fico até sem jeito...
_ Como consegue ser tão rompante sendo, como és, tão anódino? Eu não conseguiria...
_ Que é isso, cara? Eu...
_ Sua mente deve se constituir de uma grande quantidade de estrabo! 
_ Poxa! 'Brigadão, cara! A sua também.
_ Epa! Sem ofensas por aqui!

Não tenho dúvidas de que o cidadão ainda sairia ganhando a simpatia do sujeito. Eis a beleza da língua portuguesa, apaziguando as mazelas sociais e encobrindo os calhordas. Imaginem outras implicações práticas disso. Por exemplo, chamar uma mulher de gorda "é a morte" - pra elas e, literalmente, pra eles, os sinceros, a menos que receba "alta" no hospital. Infelizmente, vivem nos perguntando se estão gordas, esperando ouvir a resposta falsa mas jurando preferir a verdadeira. Como exalar sinceridade pelos poros da cara sem se dar mal?

_ Lindinha, considero-te, com a mais absoluta franqueza, uma garota untuosa!
_ Poxa, mô! Que lindo!
_ Tudo por você, minha rotundinha!

Chamando uma gordinha de untuosa, como provavelmente ela não admitirá que não faz a menor ideia do que significa esta palavra, é capaz de fazer uma correlação com “gostosa” (pelo menos pela rima). E é rotundinha mesmo. Deve-se dizê-la assim, no diminutivo, que é mais carinhoso. Rotunda já poderia levantar suspeitas.

E imaginem um diálogo de pai para filho (ou: como ser um pai sincero sem traumatizar o garoto):

_ Papai, o senhor me acha burro?
_ É claro que não, meu papalvinho!

E como qualquer um - que não seja o Cipro Neto ou o Tom Jobim - se portaria diante de declaração tal:

“Improfícuo e timorato! Vem daí os malogros de sua vida antálgica. Quão histriônico és, grande estrabo encontrado num recinto infeto e abodegado que fora o ventre de sua genetriz. És sobretudo desprovido de atilamento e filho de uma barregã! Alvitre de uma amblose natural. Ser enodoado e gorado!”

Machado de Assis, certamente, xingaria assim seus desafetos, sem perder a compostura. Pessoas cultas sempre se dão bem, até mesmo nas atitudes mais incultas da vida. 

Bendita seja a nossa língua. Especialmente as sinonímias.