quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

VANGUARDA

Ele ficou pelo menos cinco dias e uma metade de madrugada naquele quadro com o retrato de sua namorada Carlota. O dia dos namorados já estava às vésperas, além de que comemorariam mais um aniversário da própria Carlota. E é sempre bom quando, numa mesma data, se pode comemorar duas ou mais daquelas datas que a nos obrigam a dar presentes. Pode-se economizar um ou dois dias com um presentinho só.

Eis que a obra estava pronta. Levou-a pra emoldurar e embrulhar, e seguiu caminho até a casa da namorada. Ela estava debruçada sobre a janela, fixando os olhos num horizonte perdido. Ele a agraciaria com uma flor, um beijo e, claro, o quadro. Como é fácil agradar às mulheres! – pensou – Olha como desembrulha o pacote, curiosa e perplexa, ansiosa por ver seu conteúdo. À tardezinha, ainda andariam pela pracinha de mãos dadas, e eis que um perfeito dia dos namorados com um aniversário de lambuja se encerraria em grande estilo; e quase sem gastar um centavo – a não ser com a moldura do quadro; uma fortuna.

Tudo seria perfeito, SE ela não resolvesse formular “aquela” pergunta:

_ Quem é essa?

Poxa, amorzinho! Perguntinha cretina. Quem mais poderia ser, meu docinho de mel? Quem, senão minha musa, minha deusa que desceu do cume do Olimpo para iluminar minha alma e inspirar-me paixão e poesia que, ora, retrato neste quadro que me tomou cinco dias e meia madrugada, sem descanso, a pintar, no afã de agradá-la? Quem, senão a mesma que me aborrece com pergunta tal? Vide o branco dos olhos do retrato e compara com os teus.

_ Você, minha paixãozinha!
_ Eu?!
_ Claro!
_ Tem certeza?
_ Quem mais poderia ser?

Ela analisa melhor os contornos, tenta encontrar alguma coisa, algum traço que lembre os que torneiam seu próprio rosto. Mas é inútil. Aliás, nem o branco dos olhos...

_ Olhos rosas?!
_ Brancos, minha princesa. Ou deveria sê-los. Ao pintá-los, inadvertidamente usei o mesmo pincel mal lavado de que usei pra pintar o vermelho de suas bochechas e...

_ É verdade! Por que minhas bochechas estão tão vermelhas?
_ São as maçãs, minha fofinha! Os gregos a viam como sinal de beleza, suavidade e fertilidade do qual...

_ Mas carmesim vivo?
_ É meu estilo. Vanguarda! Inovação! Vermelhismo, Cubismo, Barroco! Tudo junto!

Este é o problema com os leigos. São incompreensíveis. Não sabem quando uma pintura horrorosa é manifestação de um novo estilo de arte denotando grande genialidade de um artista de vanguarda, ou, apenas, fruto de um mau-gosto ímpar mesmo. Analisemos as cinco damas nuas e desconfiguradas que Picasso retratou em Les Demoiselles D’Avignon. Sempre considerei a obra horrorosa, na infância. Cresci, interessei-me pelas artes e, hoje, porém, posso admirá-la como um marco da revolução cubista – embora continue a achá-la horrorosa.

Pior que a incompreensão é o preconceito contra o novo, contra tudo aquilo que quebra padrões e conceitos que, em geral, infestam a cabeça das pessoas. O que não deixa de ser uma variação de incompreensão. Querem um retrato limpo, com traços bem definidos e, acima de tudo, que lembre – pelo menos lembre! – a pessoa retratada. Algo como Mona Lisa, que, para muitos, é a cara do Da Vinci; só que grávido.

Quando se deparam com uma obra cheia de rabiscos, manchas e borrões de tinta ininteligíveis, interpretam-na como manifestação de mau-gosto. Não que não possa sê-lo, mas é difícil distinguir assim, de plano. É preciso ter a santa paciência de olhar, estudar, rever e se instruir das intenções do artista, do estilo empregado, do espírito que desejou incutir na alma dos que lha vislumbram. Se nenhum desses elementos estiver presente, não é arte – a menos que de uma vanguarda muito adiantada que busque novos conceitos de interpretação. Mas essa é minha explicação; e outros podem ter outras. Enfim, é uma coisa complicada.

_ E esta mancha branca nos meus cabelos negros?
_ É efeito de luz, meu docinho de jiló amargurado! Efeito de luz!