FARINHA DO MESMO SACO

Um liberal é um conservador, no poder. Um conservador é um liberal, no poder. Eis o fantástico elemento homogenizador de ideologias: esta promiscuidade profana que é a Política. Lá em cima, mandando e desgorvernando, são todos rigorosamente iguais. Mesmos ideais, mesmas atitudes, até as mesmas barbas.

Direita e esquerda – e coluna do meio, diria um presidente que nada sabia – só se distinguem fora desses círculos; criticando o Governo e lutando pra colocar ali um dos seus, prometendo grandes ações como “nunca antes neste país”. E aquela do peixe que sempre cai na mesma armação da minhoca no anzol continua sendo a anedota que melhor ilustra o eleitorado brasileiro.


Afinal, são sempre as mesmas promessas, as mesmas negativas, as mesmas trocas de acusações, desabafos e desaforos. Basta seguir o mesmo script que já levou tanta gente ao poder. O marketchim é quase desnecessário. E continuamos votando, sempre. Chego a me perguntar quais critérios são adotados pelo eleitor pra preferir um ao outro? Porte físico? Grau de instrução? Experiência profissional (e política é profissão das mais duradouras neste país)? Alguma coisa mais parcial e menos honesta, como promessas de cargo? Cestas básicas?

_ Vou criar 10 milhões de empregos!

Ah, tá!

_ Vou promover as reformas tributária, política e agrária!

Já ouvi isso uma vez. Aliás, várias vezes.

_ Vou enxugar essa carga tributária que arrasa os microempresários e vou aumentar o salário-mínimo pra R$ 1.000,00!

Enfim, é um roteiro passado de mão em mão, há gerações, seguido na íntegra por candidatos ao primeiro mandato, à reeleição, a outro mandato qualquer, por aliados e adversários, dos dois poderes que chateiam o cidadão com a imposição do voto. Prometer o que não se pode cumprir e jurar o máximo de fidelidade ao eleitorado, na maior cara-de-pau que se puder fazer. Um pouco de carisma também ajuda. Não tem muito segredo.

Confesso que dificilmente voto em branco ou levanto uma bandeira parecida. Sou da massa, do rebanhão perdido que não sabe direito pra onde ir. Minhas escolhas parecem se basear em decisões parecidas a “com qual pé me levanto da cama hoje?”. Não tem como saber quem é o mentiroso – a não ser, é claro, quando um dos candidatos estiver concorrendo à reeleição. Ali, encenando e pedindo votos sob as luzes da ribalta, o político pode apresentar a melhor das boas intenções em estado bruto. Todas as suas promessas, por mais absurdas que possam parecer, são verdadeiras e conscientes – desde que não vença a competição e não assuma o cargo pretendido, pois, daí, é outra história.

As campanhas de “voto consciente” que o próprio Governo promove às vésperas das eleições são pernósticas. Querem nos conscientizar de que sejamos criteriosos ao votar, sabendo, porém, que não há critério consciente algum pra isso – o prático “unidunitê” não conta. No fim, colocamos mais um safado no poder e o Governo ainda se sente na moral de nos dizer: “deviam votar de forma mais consciente”. Quanta injustiça!

É bom pelo menos avaliar o passado de cada candidato. Os antecedentes criminais, o que fizeram, se foram infiéis – partidariamente e, principalmente, com os eleitores; enfim, conhecer bem o candidato antes de votar. E, de preferência, repugnar a reeleição, pois errar é humano, mas insistir no erro é brasileirice! No poder, seu candidato será rigorosamente igual ao antecedente. Mas, pelo menos, provamos o gostinho de tirar o emprego de um calhorda.