Sempre admirei os japoneses. A garra, a força de vontade e a inteligência desse povo chegam a assustar. Os brasileiros são mais calorosos, gostam de resolver as coisas no improviso e na embromação e adoram falar demais. Os provenientes da Terra do Sol Nascente, não. Sempre os vejo quietos, aparentando estado constante de reflexão e raciocínio. Lá estão eles, nos vestibulares, nos concursos públicos, sem trocar uma palavra com ninguém e com os olhinhos fixos (o fato de serem puxadinhos deve ajudar) nas questões elaboradas, respondendo a todas velozmente e com precisão. Mesmo assim, costumam ser os últimos a entregar a prova na banca... e os primeiros nomes a aparecerem nas listas dos aprovados.

Mas o que realmente importa, pelo menos pra postagem do dia, é a admiração desse povo pelos quadrinhos. Pelos SEUS quadrinhos, claro. São leitores ávidos e fiéis de mangás (quadrinhos japoneses, para os menos entendidos) e espectadores fanáticos de desenhos animados... deles também (chamados, lá, de animes). E, pelo visto, essa paixão é contagiosa, pois está se espalhando pelo mundo todo, mais rápido que o vírus Ébola, em plena época de crise dos quadrinhos (ocidentais, claro).

É uma revolução quadrinística liderada pelos nipônicos, com direito a samurais, robôs gigantes, cavaleiros do zodíaco, monstrinhos que saem de bolas, muita porrada e muito drama. São historinhas cheias de ação e de uma característica toda própria. Os mangás valorizam as expressões, deformando quase que totalmente os personagens para incutir no leitor a mesma emoção que o desenhista quer passar. É o que se nota, por exemplo, quando um personagem grita nervoso: sua cabeça é aumentada até preencher todo o quadrinho e a boca se abre tanto que parece prestes a engolir todo o quadro. Quando, porém, estão tímidos ou dizendo coisas infantis, diminuem de tamanho e os traços do personagem se infantilizam de uma forma tal a ficarem “fofinhos”, como se virassem crianças. Ou seja, ficam totalmente descaracterizados, dependendo da emoção a ser passada ao leitor. É um conceito que nunca se viu nos quadrinhos ocidentais. Aqui, a gente também vê alguns recursos de deformação nos quadrinhos, como olhos que saem de órbita, boca que cai até o chão, etc... mas muito mais por objetivo cômico do que o de expressar emoção e sentimento do personagem.

O forte dos mangás, entretanto, não são os traços e a forma nada convencional – para os padrões ocidentais, claro – de serem lidos (de trás pra frente e com uma ordem de leitura toda própria). Os mangás se sobressaem, mesmo, pela história e pela narrativa envolventes, do tipo que faz o leitor sentir-se na pele do personagem e vivenciar todo o seu drama. Ou seja, os leitores se identificam com o personagem, tamanha sua – ãhnn - “humanidade” e valorização de seus sentimentos (ódio, alegria, tristeza... essas coisas).

Mangá também tem porrada, super-heróis, personagens poderosos jogando bolas de fogo, vestindo armaduras mitológicas, evoluindo-se... essas coisinhas tão atraentes dos quadrinhos, filmes e desenhos animados.

Há, ainda mais, uma característica diferenciadora: são elaborados de acordo com temas e faixas etárias, direcionando-se a todos (TODOS!) os públicos-alvos possíveis e imagináveis. Tem quadrinhos dirigidos especialmente às crianças (chamados de Kodomo, mais infantis), dirigidos às mulheres (Josei, com receitas de comida e dicas sobre relacionamento) e às adolescentes mulheres (o Shojo, com histórias sobre relacionamento e manias típicas desta fase), quadrinhos mais sérios e dirigidos a homens adultos (os Seinen, com mais ação policial e crítica social) e a adolescentes homens (os Shonen), bem como mangás dirigidos a todo tipo de perversão ou opção sexual: para gays (Shonen-ai, mais romântico; e Yaoi, mais pornozão), lésbicas (Shojo-ai, mais romântico; e Yuri, mais pornô), pornô heterossexual (Hentais), pornô grotesco, envolvendo tripas e entranhas (Guro), hermafroditas (Futanari), tentáculos (Shokushu), pornografia infantil e pedofilia (Lolicon) e outros milhares de temas. Se existe a mais remota possibilidade de público leitor, por mais doentio que seja, lá está um mangá específico pra ele!

Dos mangás originaram-se os Animes (desenhos animados japoneses), o Cosplay (“costume play”, em que os fanáticos por quadrinhos e animes vestem-se e agem como seus personagens favoritos, em eventos – nerdismo puro, enfim) e, até, o Otaku (pessoas tão fanáticas por quadrinhos que vivem em função disso, isolando-se do mundo real). Enfim, os quadrinhos nipônicos acabam fazendo parte do dia-dia dos japoneses e, agora, invadem o dia-dia dos ocidentais também, com sabor de novidade. Afinal, é tanta variedade, que nem lendo mangás o dia todo e todo dia se chega a conhecer metade do que está disponível nas bancas. Não é como cá, que a gente passa nas bancas e só encontra quadrinhos dos mesmos super-heróis estadinudenses de sempre, e títulos de Maurício de Sousa, Disney e – olhe lá – algumas produções independentes que, em geral, não vingam.

Não é à toa o sucesso dos mangás! Sempre defendi/profetizei/preguei/ressalvei que o público – ocidental, oriental, lateral e colateral – quer novidades, inovação. A diferença é que o público oriental tem o que quer, enquanto o ocidental tem de se contentar com os pouquíssimos títulos que ainda dão retorno lucrativo aos seus produtores.

A influência dos mangás atingiu até caras como Frank Miller (um ícone dos quadrinhos americanos, responsável por séries insuperáveis como Electra, Cavaleiro das Trevas, Sin City, 300 de Esparta e Ronin – neste, esta influência é ainda mais óbvia), o ilustrador norte-americano Brian Wood e Maurício de Sousa (ou alguém aqui ainda não ficou sabendo daquela Turma da Mônica “manganizada”?).

Enfim, os mangás chegaram pra ficar, dominar mais terrenos e conquistar o mundo. Já foram recebidos com críticas preconceituosas (daquele povo que diz que mangá é tudo igual e sem graça, sem o menor conhecimento de causa), boicote, piadas (quem nunca ouviu aquela de que os personagens dos mangás têm olhos grandes porque os japoneses têm trauma de seus olhinhos puxados?)... Tá certo! Os mangás não são facilmente “digeríveis”, de início. A gente vê aqueles quadrinhos todos em preto-e-branco, cheio de rabiscos e com requadros espalhados com uma ordem que não nos parece muito lógica, e começa a pensar que perdeu grana comprando aquilo. Depois, porém, que a leitura começa – ainda que a contragosto, por ter pagado pelo material – a história começa a se desenrolar e o drama a nos envolver de forma tal, que, quando nos demos conta, já estamos agindo e falando como o personagem do gibi.

E já estava terminando a postagem sem chegar numa coisinha absolutamente necessária: um resuminho da história dos mangás - o que me parece interessante, certo? Os mangás têm suas raízes no século VIII d.C.(!!!), nos primeiros rolos de pinturas com textos no Japão, que contavam histórias à medida que eram desenrolados. Esses rolos passaram a ser substituídos por livros e, nos anos 1814, Katsushika Hokusai (
um pintor japonês de renome histórico – quem nunca viu A Grande Onda de Kanagawa precisa de um pouco mais de cultura nipônica) denominou mangá (que quer dizer “desenhos informais”) os desenhos das estampas que ele mesmo fazia. Atualmente, mangá é termo usado pra designar os quadrinhos em si e os próprio estilo de desenho japonês (o famoso estilo mangá).

Mas o sucesso mesmo – este estrondoso, que abriu caminhos e dividiu águas, como a gente vê agora – veio quando um certo Osamu Tezuka, criador do robozinho heróico Astro Boy, lançou a primeira série de animação para a televisão japonesa, em 1963. Daí para frente a história dos quadrinhos nipônicos ocupou, definitivamente, seu espaço na história das histórias em quadrinhos.