Apesar da dobradinha quadrinhos x cinema ser antiga, nunca vi tantas produções épicas diretamente relacionadas aos quadrinhos nas telas do cinema ou da TV como atualmente. Quando a fórmula parece estar se esgotando, eis que ficamos sabendo de algum maluco querendo produzir filmes com algum personagem tirado das páginas das HQs.

Os super-herois, em especial, são figurinhas carimbadas neste filão. Já tivemos seriados divertidos com o Batman (com o barrigudo Adam West no papel do herói), o Hulk (com o gigante Lou Ferrino no papel do Golias Esmeralda), Mulher-Maravilha (com Linda Carter; aliás, linda mesmo); filmes primorosos e revolucionários, como Superman (todos protagonizados por Christopher Reeve, numa época em que se parecia impossível fazer alguém “voar”, mesmo que com efeitos especiais) e outros exemplos clássicos que, por problemas de memória que me acometem agora, não consigo me lembrar. Mas, atualmente, estão adaptando não apenas os super-herois de antigamente nas telonas e nos seriados, mas graphic novels, mangás e de tudo o que encontram no mundo da nona arte.

Uma trilogia com o Homem-Aranha, outra trilogia com o vampiro Blade, quatro filmes com os mutantes X-Men, duas adaptações de Hulk para as telonas, o velho Batman sempre rendendo filmes com excelente bilheteria (em especial, pelas duas últimas mega-produções – Batman Begins e The Dark Knight); Superman, Homem-de-Ferro, Quarteto Fantástico, Motoqueiro Fantasma, Hellboy, The Spirit, O Fantasma, Demolidor, O Justiceiro, Transformers, Spirit... até alguns “supers” menos conhecidos entre nós, como Aeron Flux (uma série animada que passava na MTV), tiveram sua vez. Enfim, estão dando lugar pra tudo quanto é super-heroi. Os quadrinhos orientais e animes, como Speed Racer e Dragon Ball, também tiveram suas versões cinematográficas. E não pára por aí, não! Já estão pensando em adaptar, para as telonas, herois como Thor, Homem-Formiga, Tin-Tin, Dylan Dog, Lanterna Verde e, até, toda a galera da Liga da Justiça. Tudo isso, para um futuro bem próximo! Aguenta coração!

Uma novidade muito interessante são as mega-produções cinematográficas adaptando graphics novels primorosos, como Sin City, 300 de Esparta (criações maravilhosas de Frank Miller), V de Vingança, Liga Extraordinária e Watchmen (de obras escritas por Alan Moore), só pra deixar alguns exemplos, às telonas do mundo todo. Graphic novel, pra quem não sabe, é como um livro em forma de quadrinhos; uma minissérie, uma novela. Seus personagens e todo o enredo não são criados para produções quadrinhísticas futuras (como ocorre com os quadrinhos do Superman, por exemplo); mas nascem, desenvolvem-se e morrem (ou não) dentro desta série.

Por que os quadrinhos são fontes inesgotáveis para adaptações cinematográficas épicas? Há diversas razões! O “filme” já está praticamente todo escrito e roteirizado nas páginas das revistas, bastando os produtores adaptarem o enredo com atores de carne e osso. Além disso, o bom e velho conceito de franquia está bem presente. É muito mais fácil render boa bilheteria quando o personagem e todo o enredo da trama já são bem conhecidos pelos telespectadores. Poupa uma grana violenta de divulgação do filme! E há, ainda, a vantagem de atrair tanto aos que leem quanto aos que não leem quadrinhos; afinal, são filmes... e nada melhor do que um bom filme com pipocas! E, como todo e qualquer filme, são produzidos para vender DVDs e faturar com marketing e produtos os mais diversos... e não para alavancar a venda dos quadrinhos que lhe deram origem (embora, reflexamente, acabe por fazê-lo também). Há até alguns casos de lamentáveis alterações no enredo original dos quadrinhos para adaptar o filme mais aos padrões hollywoodianos e agradar ao espectador médio do que aos fãs da série quadrinhística que lhe deu origem. Tudo pelo sucesso nas bilheterias!

Um exemplo claro de deturpação quase total do contexto original é Constantine, que nem de longe lembra o figurino loiro e inglês de Alan Moore, e ainda interpretado por um ator cheio de limitações expressivas, como Keanu Reeves, decepcionando aos fãs do mago de Hellblazer... mas rendendo excelente bilheteria. Já o oposto disso é Watchmen, épico produzido de forma a adaptar da forma mais fiel possível um dos graphics novels mais criativos e bem produzidos da história. Neste filme, tem-se quase a impressão de estar “lendo” a minissérie nas telonas do cinema, embora haja algumas pequenas mudanças e cortes que possam desagradar aos fãs mais ferrenhos da obra de Moore. Mas sua fidelidade com os quadrinhos originais é marcante!

Seja como for, é preciso deixar bem claro uma coisa: os filmes NÃO são produzidos para tirar os quadrinhos dessa crise toda que atravessam desde o final da década de 80; não objetivam fazer os gibis sumirem das prateleiras empoeiradas. Servem, apenas, para entreter aos espectadores e render boa bilheteria. E, se tiverem de alterar todo o contexto da obra quadrinhística que o inspirou só pra produzir um filme que caia melhor no gosto do povão, os produtores o farão sem dó! Puro oportunismo comercial, é verdade, mas é essa a realidade deste mundo feio e capitalista. No fim, de forma reflexa, acabam levando as novas gerações a conhecerem e lerem obras clássicas dos quadrinhos... o que é bom, convenhamos!

Nós, amantes dos quadrinhos, sofremos, é verdade. Sabemos que o filme será todo engendrado buscando muito mais engordar a conta bancária de seus produtores do que adaptar a história original dos quadrinhos ao cinema, mas não resistimos à tentação de ver nossos herois favoritos na pele de atores de carne e osso. E, por ora, salvo algumas exceções, curti praticamente todas as “versões filmadas” de quadrinhos que assisti.

E que venham mais adaptações cinematográficas de obras quadrinhísticas! Um fã voraz dos quadrinhos e declaradamente cinéfilo como eu só tem a se divertir o/