OS SUPER-HEROIS IMBECIS

Sempre curti ler histórias de super-heróis. Pessoas altruístas, que não dormem à noite só pra fazer justiça (e, de dia, ainda conseguem trabalhar normalmente... pode?), usando super-poderes adquiridos, em geral, acidentalmente, como mordidas de aranhas radioativas, queda de raios, bebidas exóticas etc., saindo pelas ruas em defesa dos fracos e oprimidos.

Todo mundo gostaria de ser um pouquinho super-herói. Voar, ter super-força, visão raio-x, ler pensamentos... até aí, tudo bem. Mas esse negócio de trabalhar duro pra ajudar os outros sem ganhar nada em troca é que não me parece uma ideia muito atraente.

Seja como for, os super-heróis são legais e eu gosto. Mas melhores ainda são os super-imbecis tapados, idiotas e atrapalhados dos quadrinhos e filmes. Aqueles que, se não servem pra combater a injustiça e defender a verdade, pelo menos arrancam algumas risadas do leitor... e fazer rir, nestes dias de crise que assolam a sociedade moderna, não deixa de ser um feito heroico.

Escrevo, agora, sobre esses super-atrapalhados de que gosto tanto. É uma lista pequena, reconheço; mas não deixa de ser uma homenagem que presto, com grande nostalgia (já que tantos aqui listados simplesmente saíram de linha), deixando o leitor livre pra pensar em outros personagens que deveriam estar aqui, mas que se ausentaram graças à falta de memória deste desmiolado que vos escreve.




CHAPOLIN COLORADO

Criado pela mente absurdamente criativa do ator Roberto Gómez Bolaños (que também o interpreta), Chapolin Colorado foi, por muito tempo, um dos maiores trunfos da TV do Sílvio Santos. Começou a ser exibido na SBT desde 1984 e só foi parar de passar regularmente lá pelo fim do ano 2000.

A grande sacada de Bolaños foi inventar um herói oposto à imagem toda perfeitinha dos super-heróis norte-americanos: um fracote feioso, medroso, covarde e atrapalhado, usando armas nada convencionais, como uma marreta de brinquedo (a Marreta Biônica), uma corneta paralisadora, umas pastilhas que o fazem encolher (as Pílulas de Polegarina) e umas anteninhas que captam a presença do inimigo, fazem transmissão telefônica e decodificam códigos (as Anteninhas de Vinil). Além disso, o herói veste um bizarro uniforme vermelho com um escudo amarelo em forma de coração com a inscrição “CH” no peito, um shortão amarelo e calçando tênis. Há, ainda, algo que lembra asas de barata que lhe tapa o traseiro.

As histórias sempre se iniciam com os personagens secundários metidos em algum perigo, até que algum infeliz resolve se perguntar:
_ Oh! E agora, quem poderá me defender?”. Era a deixa pra aparecer, do nada, esse super-herói estabanado. A partir de então, começam as trapalhadas... e os oprimidos que se virassem pra aguentar.


OS SUPER-ATRAPALHADOS DA DISNEY

Os estúdios Disney “deram à luz” uma trupe de super-heróis imbecis. Aliás, os mais atrapalhados personagens Disney são, justamente, os super-heróis que defendem (ou atrapalham) a cidade de Patópolis. Temos, aí, o Superpateta (cujo alter-ego é – adivinhem – o Pateta), o Superpato (interpretado pelo Pato Donald), o Morcego Verde (Zé Carioca) e o Morcego Vermelho (o mais atrapalhado de todos, cujo alter-ego é o Peninha).

O Superpateta é uma paródia evidente do Superman. Voa e tem super-força, além de usar capa e um uniforme ridículo que lembra um velho pijamão vermelho. Adquire poderes tais após devorar um super-amendoim que guarda debaixo do chapéu. O mais bizarro é que o Superpateta não usa nenhuma máscara, mas ninguém sabe que ele é o próprio Pateta!

Morcego Verde, Morcego Vermelho e Superpato são “crias” do Batman. Não possuem poder algum, mas se valem de uma montoeira de apetrechos para terem algum vantagem sobre os adversários.

Pior, é que os personagens na “vida real” são igualmente atrapalhados na pele de super-heróis, o que só pode resultar muita confusão e histórias divertidíssimas.




OVERMAN

Se neste país existisse (e merecesse) um super-herói, não dá pra imaginar outro que não fosse o Overman... ou, pelo menos, alguma coisa parecida: mulherengo, endividado, beberrão, louco por sexo (em especial nas sextas-feiras) e resolvendo as coisas na base do “jeitinho brasileiro”. Overman só não é um cara exatamente comum porque pode voar e tem uma força descomunal; além de que está permanentemente vestido com um uniforme de super-herói, que não tira por nada. Não tem “esconderijo-secreto” (na verdade, divide um apartamento apertado com Ésquilo, seu colega de quarto), não tem identidade secreta (Overman é sempre Overman; e nunca sequer tirou a máscara) e não sabe resolver nada na base da estratégica e da inteligência. É tudo na porrada e no improviso.

É um dos personagens mais bem bolados do cartunista brasileiro
Laerte Coutinho.


OS SUPER-MONGOS DE HANNA-BARBERA

A dupla William Hanna e Joseph Barbera responde por um dos maior império dos desenhos animados da década de 60, praticamente exercendo monopólio sobre este setor até os anos 90. Da mente desses dois surgiu uma galeria de incontáveis personagens, como Tom e Jerry, os Flintstones, os Jetsons, Scooby-Doo, Corrida Maluca, etc., etc. e etc.

O mais importante – nesta postagem, pelo menos – é que estes senhores também eram mestres em criar super-heróis imbecis. São tantos que nem me arrisco listar todos, pois teria de dedicar uma postagem inteira só pra isso. Mas basta citar o cabeludo Capitão Caverna, o embananado lutador de kung-fu Hong Kong Fu (que só se livra dos apuros graças ao gato China), a quase espadachim Tartaruga Touché e seu fiel escudeiro Dundum, a trupe atrapalhada da Quadrilha da Morte (uma galerinha de pigmeus que se responsabilizavam por salvar a pele da loirinha Penélope Charmosa que, no fim, acabava fazendo tudo sozinha), o desengonçado Tutubarão (da banda Os Netunos) e, obviamente, a célebre e bizarra dupla Salsicha e Scooby-Doo, que dispensa comentários.

Ahhh, os bons tempos dos desenhos animados desanimados, com personagens que praticamente não se mexiam e cenários que se repetiam sempre... saudades!



THE TICK

Que tipo de reação se deve ter diante de um homem gigantesco, com músculos quase rasgando o uniforme azul que lembra (ou deveria lembrar) um carrapato, cujo grito de guerra é um sinistro e apavorante...colher?!?! Além de todo um figurino ridículo, The Tick era um super-herói incrivelmente burro; e um dos mais engraçados de sua época.

O personagem protagonizou alguns pouquíssimos gibis e já saltou para as telas, num desenho animado veiculado pela Fox Kids. Fez um sucesso estrondoso nos anos 90, chegou a ganhar uma versão filmada para a televisão, mas saiu de linha de repente. Até hoje não entendi o porquê.


O MÁSKARA

Trata-se de um filme protagonizado por Jim Carrey, que conta a história de um tímido e azarado bancário que encontra uma máscara de madeira na rua e, obviamente, resolve colocá-la na cara. É o bastante pra se tornar um super-herói de cara verde, atrapalhado, espevitado e cheio de poderes, como tirar armas imensas dos bolsos, criar metralhadoras com balões de aniversário, girar como se fosse um furacão destruidor, etc. Não é, exatamente, um super-herói. Ele só quer se dar bem em tudo... coisa que seu alter-ego, Stanley, não consegue. E, neste objetivo, acaba salvando a pele de alguns fracos e oprimidos pelo caminho.

O filme marcou época, chegando a receber uma indicação ao Oscar de efeitos especiais. Também foi responsável por levar a musa Cameron Diaz ao estrelato. Teve uma continuação que não rendeu muito e uma série de adaptações em desenho animado.




EARTHWORM JIM

Trata-se, nada mais, de uma minhoca feia, fracote e inútil... pelo menos enquanto se encontrar fora da roupa-cibernética-ultra-high-tech-indestrutível-super-espacial que veste. Dentro da tal roupa, porém, a coisa muda totalmente de figura, e Earthworm Jim (Jim Minhoca, numa tradução razoável) passa a ser uma minhoca de respeito, com apetrechos de alta tecnologia e dotada de certa inteligência – para os padrões de uma minhoca, claro.

Surgiu como um jogo de plataforma desenvolvida pela Shiny Entertainment e lançado para o Mega Drive, em 1994. O sucesso foi instantâneo graças aos gráficos espetaculares para a época, à jogabilidade facilitada e, claro, à própria história do personagem – uma das mais engraçadas e nonsenses já criadas para um joguinho de vídeo-game. A bizarrice começa quando o bandidão intergalático Psy-Crow foi brigar com um piloto que havia roubado uma roupa espacial construída pelo Professor Monkey-For-A-Head'. Na briga, acabou deixando a roupa cair na Terra que, por um infortúnio, acertou uma minhoca em cheio. Assim, Jim passa a ser responsável pelo resgate de uma rainha de nome What's-Her-Name (tradução: "Qual o Nome Dela"), que fora seqüestrada pela maligna rainha Pulsating, Bloated, Festering, Sweaty, Pus-filled, Malformed, Slug-for-a-Butt.

Se a história parece sem sentido, o jogo é ainda mais. Nosso herói aparvalhado – embora melhorado pela armadura – enfrenta fases hilárias, como o interior de um intestino, florestas com vacas voadoras, bolas de ferro espinhudas e uma horda de chefões absolutamente bizarros.




OS SUPER-HERÓIS QUE DEVERIAM SER SÉRIOS, MAS...

O universo dos super-heróis justiceiros e sanguinolentos também é agraciado com alguns imbecis que fazem a graça das histórias. O exemplo mais famoso disso é o nosso amigo verde Hulk, da Marvel Comics. Quando o fracote Bruce Banner fica nervosinho, seu “eu” selvagem toma conta de si e o cientista se transforma no monstro verde que só sabe destruir tudo o que vê pela frente e expressar somente algumas frases primitivas como “Hulk esmaga!”. Apesar da imbecibilidade, o gigantão já “esmagou” caras como o Wolverine, o Homem-Aranha, o Coisa e mais uma porrada de super-heróis “inteligentes”.

Também na Marvel Comics encontramos Volstaag, um dos filhos do deus nórdico Odin. Tudo o que sabe fazer é beber, cair na gandaia e resolver as coisas na porrada, o que não parece ser de grande valia para o nosso amigo Thor, seu irmão. Ainda na Marvel, temos Drax, um monstro verde conhecido por seu cérebro diminuto e de fácil manipulação.

A editora de quadrinhos Image Comics, grande revelação dos anos 90, também não fica atrás no quesito super-heróis imbecis. Na equipe Wild C.A.Ts, por exemplo, se sobressai Marreta, um brutamontes com poder de aumentar a massa muscular até rasgar o uniforme... e diminuir a massa encefálica na mesma proporção. A equipe de adolescentes biônicos Gen13, também da Image, nos agracia com Grunge, um dos mais fortes e imbecis da equipe. Por fim, os sanguinários heróis da Youngblood contam com o musculoso e imbecil Bedrock. Não sei porquê, mas me parece que quanto mais massa muscular o super-herói possuir, mais burro e estabanado se torna.


E vamos parar por aqui. Não que a lista tenha chegado ao fim, é claro. O universo dos super-heróis aparvalhados é vasto. Mas prometi apenas uma singela homenagem aos super-otários dos quadrinhos, não uma enciclopédia completa sobre o assunto.

Apesar do super-trabalho que me deu escrever uma postagem deste tamanho, pesquisando sobre o assunto e diagramando tudo, não posso me queixar. Foi uma viagem no tempo divertida que valeu cada palavra escrita. Afinal, nossos super imbecis/atrapalhados/papalvos/divertidos heróis merecem.