NÃO DESISTA DE SEUS SONHOS

Nestes tempos de grande desvalorização da arte, o que qualquer artista precisa é de incentivo. Não de um empurrãozinho, pois muitos já estão praticamente à beira do precipício, o que não seria interessante; mas de uma ou duas palavrinhas que o façam parar de olhar pro fundo do abismo e seguir novos rumos.

Como artista aspirante a cartunista que sou, confesso que este artigo é pra mim também. Não é fácil viver de artes no Brasil (e, a rigor, em lugar nenhum do mundo), especialmente quadrinhos. É fácil encontrar motivos pra desistir destes sonhos. Mas é nestes momentos que me recorro aos exemplos; à história dos grandes nomes da arte, que já passaram – todos, creio – por desestímulos parecidos e só chegaram onde estão, hoje, por que nunca desistiram de sonhar e ir atrás.

Se o leitor está precisando de incentivo, recorra aos exemplos de vida de grandes homens e mulheres que já passaram pelo que você passou e, hoje, estão onde você quer estar. Nesta postagem, trago uma rápida biografia de grandes nomes da arte – lista, aliás, que não esgota o assunto, claro. Vamos nessa?


WALT DISNEY

Se dependesse de incentivo pra seguir com seus sonhos, Walter Elias Disney provavelmente viria a ser um homem de negócios fracassados como foi seu pai, o severíssimo senhor Elias Disney, que o castigava duramente se deixasse o trabalho pra desenhar ou se divertir. Se dependesse de sorte, Disney teria desistido de todos os seus sonhos quando, aos 21 anos de idade, chegou a um certo estrelato produzindo desenhos animados e filmes junto a outros cinco jovens entusiasmados, fundando a Laught-O-Gram Films; mas experimentando, em seguida, a falência e se vendo obrigado a morar num escritório sujo e sem banheiro, cujo único “companheiro” era um rato que aparecia ocasionalmente. Se dependesse, ainda, de pessoas honestas cruzando o seu caminho, teria se estatelado quando o diretor da Universal Pictures lhe roubou uma grande criação: o Coelho Oswald, alegando que Disney tinha um contrato com a empresa cedendo os direitos sobre o personagem.

Se parece difícil entender como um cara de tão pouca sorte chegou a patamares tão altos, construindo o maior império de entretenimento de todos os tempos, a resposta está no entusiasmo e na confiança inabalável que Disney carregava no espírito. Eis um sujeito que caia bastante, mas se levantava sempre. E cada vez mais forte.

Quando decidiu que não mais trabalharia pra ninguém, Disney finalmente criou Mickey Mouse – antes chamado Mortimer, mas renomeado por sugestão de sua esposa Lilian. Com esta criação, lançou o primeiro desenho animado sonoro (dublado por ele mesmo): “Steamboat Willie” (aqui traduzido como “O Barco do Mickey”), em 1928. De 1929 a 1939, Disney produziu “Silly Symphonies” (Sinfonias Tolas), a primeira série de desenhos animados colorida. Veio, depois, “Flowers and Trees” (Flores e Árvores), que recebeu o primeiro Oscar de desenho animado. Foi, ainda, pioneiro dos desenhos animados longas-metragens, com “Branca de Neve e os Sete Anões”, lançado em 1937. Não bastasse colecionar todos os pioneirismos no que concerne aos desenhos animados, ainda lançou o primeiro filme com desenhos contracenando com atores reais: “Mary Poppins”, em 1964.

O insaciável Disney – que deve sentir prazer em ser contrariado pra, depois, provar que é capaz de qualquer coisa – ainda projetou um parque temático gigantesco, que veio a ser instalado em Anaheim, na Califórnia: a Disneyland (1955). “Ora, sr. Disney! Quem vai querer pagar pra brincar num parque de diversões para criancinhas?”, foi o que lhe disseram. Nada menos que mais de 515 milhões de convidados – incluindo realezas e celebridades diversas – e milhares de visitas diárias.


MAURICIO DE SOUSA

Eis um exemplo bem brasileiro de que vale a pena sonhar um pouquinho.

Mauricio de Sousa, jovem, à procura de emprego de ilustrador em jornais, só conseguiu um cargo de repórter policial na Folha da Tarde, em São Paulo – e, isto, por que estavam precisando de alguém. Não parou de desenhar, mas o fazia com cuidado pra não prejudicar seu trabalho no jornal. Mais tarde, conseguiu convencer o editor do mesmo jornal a publicar suas tirinhas... mas foi aconselhado pelo editor de arte a “pensar melhor” e a desistir dos desenhos. Já casado, pai de família, viajou em busca de jornais na região de São Paulo que aceitassem publicar suas tirinhas. E, claro: tomou muitas portas fechadas na cara. Passou 10 anos desenhando tirinhas, criando dezenas de personagens, quando resolveu que estava na hora de lançar uma história em quadrinhos com a personagem Mônica. Foi quando, finalmente, começou a ser reconhecido.

Depois, Mauricio tentou entrar no ramo dos desenhos animados, fundando um estúdio de animação com mais de 70 artistas e realizando 8 longas-metragens. Porém, a inflação inviabilizou novos projetos. Outras questões, como o mercado de bilheterias confuso, leis retrógradas e burocráticas e demais dificuldades políticas e econômicas, levaram Mauricio a desistir dos desenhos animados... temporariamente, claro. Em janeiro de 2007, estreou no Brasil o longa: “Uma Aventura no Tempo”, com todos os principais personagens da Turma da Mônica juntos. O desenho angariou boa bilheteria e excelentes críticas.


OSAMU TEZUKA

Não fosse o mestre japonês Osamu, toda essa febre arrasadora dos quadrinhos nipônicos provavelmente não passaria de um reles resfriadinho que não ultrapassaria o monte Fuji. Entretanto, com Tezuka e seus cartuns hilários, os animes e os quadrinhos japoneses calcaram seu espaço de destaque na história das histórias em quadrinhos. A propósito, ele é o pioneiro dos longas-metragens animados japoneses que, hoje, conquistam todo o mundo - e o maior divulgador do famoso estilo mangá, com personagens de olhos grandes e valorização dos sentimentos.

Filho de uma família de classe média, Osamu tinha tudo o que queria, e tudo pra dar certo; até que veio a 2ª Guerra Mundial, em 1939, arrasando a economia japonesa. Osamu ingressou numa faculdade de Medicina, mas continuou desenhando e publicando quadrinhos em jornais. Com a derrota japonesa na guerra, Osamu decide se formar desenhista, enfrentando grande pobreza e escassez de materiais (como tinta e papel). Em 1946, lança a histórica “Shin Takarajima” (algo como A Nova Ilha do Tesouro), uma HQ desenhada em forma de storyboard de desenho animado. Depois, em 1963, começou a produzir animações em série no Japão, para TV, com uma produtora por ele mesmo fundada: a Mushi Productions. Em 1964, a série “Tetsuwan Atomu” (Astro Boy) já estava passando até nos Estados Unidos.

Apesar do sucesso, problemas financeiros foram surgindo nos anos 70, que obrigou Osamu a encerrar suas atividades e a fechar as portas de sua produtora. Decide, então, voltar com tudo ao mangá, criando diversas obras históricas. Foi nos anos 80, finalmente, que suas criações o tornaram mundialmente conhecido. Infelizmente, porém, Osamu padeceu de câncer de estômago, vindo a falecer em 9 de fevereiro de 1989. Era o período em que desenvolvia o que considerava ser sua obra-prima: o mangá “Hi no Tori” (“Pássaro de Fogo” ou “Fenix”).


J. K. ROWLING

Joanne Kathleen Rowling é a genialidade por trás de Harry Potter, o bruxinho da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Hoje, as principais magias do pequeno mago são encantar crianças e adolescentes do mundo todo e fazer nascer dinheiro aos montes, com licenciamentos e produções cinematográficas, que tornam J. K. Rowling a escritora mais bem sucedida do mundo.

Mas, claro... nem sempre foi assim. Em 1996, com quase 30 anos de idade, Rowling era uma mulher divorciada de um jornalista português, falida e vivendo de seguro-desemprego. Para proteger sua filha do frio e da chuva, tinha de se refugiar num café de esquina, pois sua casa, de tão velha, estava cheia de frestas e caindo aos pedaços. Era neste refúgio que começou a escrever – em guardanapos! – uma história infantil de um certo bruxo adolescente com uma cicatriz na testa em forma de raio. Resolve, então, datilografar os manuscritos e buscar uma editora pra lançar “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Ouviu aquele sonoro e angustiante “NÃO” de nove editoras; e a décima aceitou, pagando uma mixaria de adiantamento. Tudo bem; foi o bastante. Atualmente, todos os livros de Harry Potter somem das prateleiras quase que no mesmo dia do pré-lançamento, e todas as adaptações cinematográficas das obras rendem milhões com bilheteria. Mas isso você já sabia.


MADONNA

É difícil imaginar que a rainha do pop, uma senhora de 50 anos – que, ao que parece, não está nem aí pra idade, pulando e cantando em estádios abarrotados de fãs -, arrecadando milhões de dólares por show, com incontáveis premiações no currículo... tenha tido, também, um passado de grandes dificuldades e instabilidades. Pois foi assim mesmo que Madonna Louise Veronica Ciccone – ou só Madonna, pra encurtar – viveu por um bom tempo: em meio a agruras e privações econômicas.

Passou a infância nos subúrbios de Pontiac e, mais tarde, de Rochester Hills. Sua mãe morreu de câncer de mama quando a garota estava, ainda, com 5 anos de idade; e seu pai se casou com uma antiga empregada da família. Na ausência do pai, Madonna era quem cuidava dos 4 irmãos e 3 irmãs.

Aos 14 anos, começou a ter aulas de dança com um certo Chrystopher Flynn e, em 1976, cursou dança na Universidade de Michigan. Encorajada pelo próprio Flynn, Madonna decide abandonar o curso e mudar-se para Nova York tentar a vida como bailarina – e com apenas 35 dólares no bolso. Mais um período de aperto de cinto, dependendo de amigos e trabalhando como garçonete em Manhattan para sobreviver. Participou de alguns grupos de dança e de várias bandas de rock e pop, mas estava determinada a conquistar o sucesso sozinha!

Em 1983, lançou “The First Album”, com faixas como “Everybody”, “Holiday” e “Bordeline” – de certo sucesso nos Estados Unidos. Mas foi em 1984, com o álbum “Like a Virgin”, que Madonna é catapultada ao estrelato... e das estrelas não desceu até hoje.


Enfim, todos os sonhos são viáveis? Insistir teimosamente e remar contra todas as correntezas do mar da vida sempre leva ao sucesso? Não sei! E nem há como saber. Você é quem deve ser o primeiro a avaliar suas chances e o último a abandonar a esperança. Ouvir “nãos” e tomar na cara faz parte da vida – afinal, é para baixo que todo santo ajuda; não para cima.

Não gostamos do som de vocês. Além disso, conjuntos de guitarristas não têm futuro”, teria dito um executivo da gravadora Decca, em 1962, a um quarteto de Liverpool – os Beatles. “Não gostamos dessa música de negros por aqui! Se eu fosse você, voltaria a dirigir caminhão!”, disse Denny, gerente de uma casa de shows em Nashville, a um desolado Elvis Aaron Presley. Enfim, esses infelizes não faziam a menor ideia do que estavam falando. E os que te dizem NÃO, hoje, podem estar fazendo a mesmíssima coisa.