A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

História em Quadrinhos – ou HQ – é uma forma de contar uma história por meio de desenhos dispostos dentro de quadrinhos. O mestre quadrinhista Will Eisner a denominou “arte seqüencial”, pelos vários desenhos elaborados em seqüência – não importa qual seja (de frente pra trás, como os ocidentais; de trás pra frente, como os orientais; de baixo pra cima, como acabei de inventar). O importante é que seja uma série de desenhos elaborados de forma a contar uma história, um conto, uma ficção.

Tudo tem uma história. E as Histórias em Quadrinhos têm uma história e tanto! Preparados para a viagem no tempo, caros leitores? Não?! Ainda não apertaram os cintos? Tudo bem, eu espero.



O COMECINHO DA AVENTURA

Dar um marco inicial para a história das Histórias em Quadrinhos é uma tarefa deveras complicada. Há quem atribua aos hieróglifos egípcios o início das artes sequenciais quadrinhísticas. Alguns mais exagerados vêem nas artes rupestres (aquelas pinturas toscas nas cavernas, nos tempos da Idade da Pedra) uma manifestação ainda mais antiga de Histórias em Quadrinhos. Outros vêem HQ até nas tapeçarias medievais, nos emakimonos japoneses (pinturas e textos em rolos que contavam uma história à medida que eram desenrolados), em vasos de quinta dinastia; enfim, em qualquer coisa que lembre arte sequencial. O que é um erro! HQs não são a única forma de arte sequencial existente.

Poucos, porém, discordam que a primeira manifestação de História em Quadrinhos mesmo, tal como a conhecemos hoje (em seqüência, com personagens fixos e com frases), é Yellow Kid (“O Menino Amarelo”), de Richard Outcault. O personagem apareceu pela primeira vez em 1895, nas tirinhas do jornal New York Sunday World. Ainda não existiam os populares balõezinhos com frases (as frases apareciam escritas no próprio roupão do personagem), nem os desenhos eram exatamente dispostos em quadrinhos arranjados (eram jogados nos espaços das tirinhas), mas os traços infantis e a forma seqüencial da arte contando uma história já estavam presentes.

Já em 1897 chegou a vez de Rudolph Dirks dar sua grande contribuição à história da nona arte. Com Katzenjammer Kids (“Os Sobrinhos do Capitão”), Dirks reinventou as HQs usando balões com frases e o método de desenhos dentro de quadrinhos em seqüência. Com Winsor McCay, na obra Little Nemo in The Slumberland, lançada em 1905, os quadrinhos passam por uma revolução estética surpreendente, com perspectivas e traços surrealistas.

As tirinhas continuavam a ser aperfeiçoadas. George Herriman lança Krazy Kat, as primeiras tirinhas dirigidas a um público mais maduro. Os traços pareciam mais rabiscos grotescos e surreais, com histórias cômicas absurdas de perseguição entre um gato, um rato e um cachorro; mas não pela inimizade natural das espécies, mas, sim, por loucos amores não correspondidos entre eles. Depois, surge o Gato Felix, de Pat Sullivan, direcionado a crianças; e Disney lança Mickey Mouse e sua trupe, que dispensam comentários. Em 1929, Elzie Segar lançou Popeye, o marinheiro que come espinafres em latas como forma de propaganda sobre a importância das crianças nutrirem-se com legumes e vegetais. Os quadrinhos começaram, então, a desempenhar um papel mais educativo, sem perder o bom humor.



DÉCADA DE 30

Os anos 30 foram dos mais promissores para a história das HQs. Betty Boop, de Max Fleischer, surge em 1930. Suas curvas, decotes e pernas de fora com cintinhas marcaram época – e, embora atualmente não mais se vejam filmes e gibis com a mocinha, ela continua sendo uma marca comercial muito bem sucedida. Alex Raymond lança uma variedade de grandes sagas, como as aventuras de Flash Gordon, Jungle Jim (“Jim das Selvas”, baseado no personagem Tarzan) e o agente secreto X-9. Dick Tracy, o famoso detetive difícil de matar e dotado de grande inteligência, criado por Chester Gould, foi lançado em 1931. Ainda neste época, personagens como o Fantasma e Mandrake, de Lee Falk, também abarrotavam as tirinhas de jornais.

Em 1933 é publicada, nos Estados Unidos, a primeira revista americana de quadrinhos: “Funnies on Parade”. Depois, em 1938, com a editora Action Comics, lançou-se Super-Homem, de Jerry Siegel e Joe Shuster... aliás, uma super-inovação que passou a ser paradigma a quase todos os super-heróis que viriam a ser criados mais tarde. Em 1939 iniciou-se a Segunda Guerra Mundial; e os heróicos personagens dos quadrinhos passaram a se envolver em tramas de guerra e violência. Grandes criações como Capitão Marvel, Tocha Humana, Namor, Capitão América e The Spirit surgiram no decorrer deste conflito global.



OS FAMIGERADOS “COMICS CODES”

A década de 50 marcou os anos de ouro dos quadrinhos, com crianças e adultos fascinados pela atmosfera cômica dos quadrinhos vendidos a centavos de dólar nas bancas e das tirinhas de jornal.

Foram, também, surgindo histórias de terror e violência que eram lidos, em sua maioria, por crianças e adolescentes. Era a deixa para que pais, educadores e legisladores de todo o mundo resolvessem declarar guerra contra os quadrinhos. Fredric Wertham, um alemão formado em Medicina (ou seja, sem conhecimento algum em psicologia, tampouco quadrinhos) lançou o livro Seduction of the Innocent (“Sedução do Inocente”), acusando os quadrinhos de perverter valores morais e de emburrecer as crianças – supostamente por deixar de ler livros para se dedicar às revistas de HQs e tirinhas. Dizia-se, mais, que os quadrinhos estavam carregados de violência, terror, sexo, doutrinas comunistas e discriminação racial (como se este último fosse motivo para censura numa época de forte racismo nos EUA).

Foi o bastante para que a Comic Code Authority fosse criada como forma de regulamentar os quadrinhos. E regulava-se tudo: conteúdo das revistas, cores, temas e palavras a serem utilizados, formatos etc. Todos os lançamentos deveriam ostentar um selo na capa atestando sua aprovação conforme as regras.

O mercado de revistas de super-heróis desmoronou com isso tudo... mas as tirinhas de jornal voltaram aos tempos de glória, com grandes personagens surgindo, como os gauleses Asterix e Obelix, Mortadelo e Salaminho, Os Smurfs, dentre outros.

A década de 60, porém, veio para restaurar o mercado de Quadrinhos de super-heróis. Personagens como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Thor e Surfista Prateado, todos da editora Marvel Comics, surgem com grande aceitação popular – graças à natureza mais humanitária, altruísta, com instinto de fazer justiça sem ferir ou matar pessoas, que marcava a personalidade desses super-heróis (e tinham aval da Comic Code Authority).

No finalzinho da mesma década de 60 surgiram as super-heroínas eróticas, como Vampirella e Jodelle. E uma era mais underground começou a se manifestar, com quadrinhos abordando temas como drogas e sexo inconsequente; especialmente com as teratológicas obras de Robert Crumb.

Pelo visto, as “Comics Code”, apesar de ainda em pleno vigor, estavam perdendo força.



OS QUADRINHOS ATUAIS

Da década de 90 até os dias atuais grandes obras quadrinísticas surgiram, prestigiando o mercado das HQs e oferecendo uma enorme variedade de títulos. Nomes como Neil Gaiman (autor de Sandman, o mestre dos sonhos), Alan Moore (roteirista de renome na DC Comics e autor de Hellblazer e Watchmen), Frank Miller (autor de O Cavaleiro das Trevas, 300 de Esparta e Sin City), Todd MacFarlane (criador de Spawn), Jim Davis (criador do gato gordo e laranja Garfield), Bill Waterson (autor das tirinhas mais bem sucedidas de todos os tempos: Calvin e Hobbes), Alex Ross (desenhista de obras como Marvels e Reino do Amanhã, respeitadíssimo por seus traços e pinturas realistas), dentre outros tantos, revolucionaram a arte das HQs. Em 1986, Allan Moore e Dave Gibbons "dão à luz" WATCHMEN, considerada por muitos estudiosos a obra-prima máxima dos quadrinhos, responsável por mudar tudo o que se produzia até então sobre super-herois.

Surge ainda, no fim dos anos 90, a editora Image Comics, fundada por ex-desenhistas da Marvel e da DC Comics, com promessas de revolução nos padrões gráficos e uma leva de super-grupos de heróis violentos como Gen 13, Wild C.A.T.S., Youngblood e outros... além, claro, de Spawn, o justiceiro vindo do inferno.

Infelizmente, porém, a partir dos anos 90 em diante, a fórmula dos Quadrinhos parece ter se esgotado. O mercado quadrinhístico tem decaído aos poucos – com exceção das HQs provenientes da Terra do Sol Nascente: os mangás; atualmente, as revistas de quadrinhos mais lidas do mundo. Os mangás ganharam projeção mundial nos anos 60, especialmente quando a série animada “Tetsuwan Atomu” (Astro Boy), de Osamu Tezuka, passou a ser exibida nos Estados Unidos.



E NO BRASIL?

Nosso país não ficou pra trás no quesito quadrinhos. Em 1869, Angelo Agostini, um italiano naturalizado brasileiro, lança “As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte”, em historinhas curtas publicadas na revista Vida Fluminense. Em 1886, o mesmo Agostini lança “As Aventuras de Zé Caipora”, a primeira HQ brasileira de muitas páginas. Com arte primorosa, traços detalhistas e personagens caricaturescos, Agostini podia ser considerado um dos precursores dos quadrinhos no mundo (inclusive, vale destacar que suas obras são anteriores às do próprio "Yellow Kid").

Em 1921, Belmonte cria Juca Pato, um personagem representante da classe média paulista que só se dava mal. A importância do personagem é tamanha na história das HQs nacionais, que se criou o Troféu “Juca Pato”, a ser entregue a escritores brasileiros de grande destaque. O troféu existe até hoje. Em 1942, Péricles cria um dos personagens mais célebres dos quadrinhos nacionais: O Amigo da Onça, com aventuras publicadas na revista “O Cruzeiro”. Em 1957, Edmundo Rodriguez cria Jerônimo, um personagem estilo faroeste. Ainda nos anos 50, Carlos Zéfiro produziu uma série de quadrinhos eróticos independentes.

A primeira revista de quadrinhos do Brasil surge em 1905: “O Tico Tico”. Em 1939 foi publicada a revista “O Gibi”, com trabalhos de vários artistas nacionais. O nome da revista ganhou uma projeção tamanha que se tornou sinônimo de qualquer revista em quadrinhos no Brasil.

Em 1960, surge “O Pererê”, uma revista de quadrinhos com textos e ilustrações do cartunista Ziraldo e personagens do folclore nacional. Na mesma época, Henfil inicia seus trabalhos com tirinhas dos personagens Graúna e Os Fradinhos, que o consagraram como um dos maiores nomes dos quadrinhos nacionais.

Com a ditadura reinante nos períodos de 1964 a 1985, muitos quadrinhos brasileiros foram censurados, acusados de subversão ao regime imposto. Entretanto, a repreensão não impediu os surgimentos de edições jornalísticas como O Pasquim, que criticava a ditadura por meio de charges. Em 1974, a editora Abril lança a revista Crás!, como tentativa de abrir espaço para os quadrinhos nacionais – infelizmente, um fracasso de vendas, encerrando suas atividades no ano seguinte.

No finalzinho de 1959, Mauricio de Sousa inicia seus trabalhos com tirinhas diárias no jornal Folha da Tarde (atual Folha de São Paulo) e, em 1970, lança a primeira revista da turma de personagens mais famosa e longeva da história das HQs brasileiras: a Turma da Mônica.

A década de 80 veio para calcar vários nomes na história das HQs, como Angeli (chargista e criador da série de tirinhas Chiclete com Banana), Laerte Coutinho (grande expoente dos quadrinhos nacionais, criador de personagens como Overman, Hugo Baracchinni e, em especial, os sanguinários Piratas do Tietê), Adão Iturrusgarai (criador de Aline e Rocky e Hudson), Miguel Paiva (criador de Radical Chic, Gatão de Meia Idade e Ed Mort), Caco Galhardo (criador de Os Pescoçudos e Chico Bacon), Fernando Gonsales (criador do rato nojento Niquel Náusea), Glauco e outros... todos trabalhando com tirinhas de jornal.



Enfim, eis um pequeno resumo da história das HQs mundial. Uma história que está longe de ter um fim, mesmo com a atual fase de crise. Apesar de tudo, mantenho a esperança de, um dia, a história das HQs venha retomar seu lugar de destaque na história da humanidade.

E, depois dessa viagem frenética, creio e espero que o amigo leitor tenha a mesma esperança.