Todo artista tem como principal ferramenta de trabalho a inspiração (a ideia, a criatividade... escolha o termo que entender mais adequado). Um músico pode compor algumas músicas pra preencher um álbum de 12 faixas, e só voltar a compor coisa nova daqui a meses. Um cartunista, “tirinhista” como eu, por exemplo, que precisa bolar uma historinha diferente por dia, todos os dias, pra vender, já não poderia se dar ao luxo de parar de criar nem por um só dia. Um pintor pode levar meses para pintar um único quadro. Enfim, todo artista precisa de inspiração; alguns apenas mais necessariamente e mais corriqueiramente do que outros.

Você, leitor, que gosta de desenhar e criar personagens, tirinhas, HQs, animações etc., certamente já se pegou naqueles dias de total falta de inspiração, em que se olha o papel branquinho à frente – e o papel olha pra você, de volta – matuta-se muito, leva-se o lápis à boca, coça-se a cabeça, e nada. A inspiração te deixou na mão. O clima barulhento e estressante do dia-a-dia atrapalhou um pouco também. É angustiante, certo? É o chamado bloqueio criativo, um fantasma temido por todos os artistas.

A inspiração me lembra um anjo tímido carregando uma cornucópia nos braços de onde jorra as ideias bem em cima de nossas cabeças. É preciso criar um clima pra essa criatura aparecer. E é só perder a concentração, que ela foge num instante. Também é um ser imprevisível, do tipo que pode aparecer no banheiro, naquela hora menos propícia possível, e jogar-nos uma ideia fantástica (ou, pelo menos, aproveitável) na cabeça, pra sair correndo depois sem nem se despedir. E é bom estar munido de lápis de papel nessas horas, pois os neurônios costumam deletar boas ideias sem dó ou piedade em questão de minutos.

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Taí, então, uma primeira lição a ser tirada. Para não perder uma boa ideia, recomenda-se estar sempre munido de papel e caneta (lápis, lapiseira, o que preferir) em todo lugar. Bateu uma necessidade fisiológica? Não deixe de levar papel e lápis pro banheiro. Está lendo um livro ou um gibi qualquer? Está jogando conversa fora com o vizinho, a namorada, o amigo, o cachorro? Está assistindo à televisão? Papel e lápis na mão, sempre. A ideia vem numa piada que contamos sem querer, numa piada que ouvimos de alguém, de um momento que vivenciamos, num pensamento a esmos. E, numa hora dessas, sem papel e lápis à mão, meu amigo... é garantia de esquecimento.

Eu sou assim. Desde que, ao longo dos tempos, me dei conta de quantas ideias perdi graças a uma memória traíra que apaga meus arquivos neuronais em lapsos de tempo curtíssimos, resolvi adotar o bloquinho de papel e a caneta como companheiros de toda e qualquer viagem. É até estranho; as pessoas perguntam. Mas é a única maneira que encontrei para não deixar passar uma boa ideia.

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Ler é essencial.
Leia muito e leia de tudo! Livros, revistas, jornais, blogs... mantenha-se sempre bem informado. Devore livros que tenham a ver com o que você está buscando. Se, por exemplo, for um cartunista em busca de ideias cômicas, leia gibis e livros do ramo. Adoro crônicas. São de fácil leitura e muito divertidas. Gibis, então, nem se fale. Enfim, a leitura de qualquer coisa pode ser uma excelente fonte de inspiração. Não que a gente vá copiar ideias dos outros, claro! Mas “variações” delas são possíveis; variações com um toque de nossa personalidade. É o que se chama influência; não plágio.

É fato que, hoje em dia, em que se parece não ter mais o que inventar (pois todo o imaginável e inimaginável já foi pensado e já aconteceu em algum lugar deste mundo cheio de gente) parece quase impossível criar alguma coisa do nada. Mas buscar inspiração em ideias já implementadas, com algumas melhorias e um toquezinho de nossa personalidade, é possível e bem mais fácil. Não nego, por exemplo, influências de Mauricio de Sousa, Disney e mais uma penca de gente nas minhas criações cartunísticas; mas também não concordo que um ou outro personagem meu seja tachado como cópia de alguma idéia de alguém. Cópia/plágio não! Influência, sim.

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"Respeitai vossos limites" - é um mandamento que não faz parte dos decálogos de Moisés, nem um ensinamento de Confúcio mas, pelo menos, há de ser uma variação de algum provérbio chinês. Sempre busquei inspiração pra fazer de tudo nos quadrinhos. Criei super-heróis e personagens de todo tipo, dos cômicos e infantis aos sanguinolentos e adultos. O que, porém, não emplacou até hoje? Os personagens e histórias adultas que criei. Tenho um estilo e tenho meus limites... e as historinhas adultas, pra mim, não pegam.

Tá certo que criei uma série de tirinhas que denominei Vida Monga, com uma temática mais adulta e mais madura, mas não deixei de ilustrá-las de forma a, também, direcioná-las às crianças e adolescentes, pois, embora explore o humor ácido, este público poderia ler e compreender as tirinhas sem ferir suscetibilidades. Seja como for, meu personagem mais famoso e querido é o Mutum, em que exploro uma temática muito mais infantil. Sei desenhar corpo humano, tenho algumas noções de anatomia... mas não adianta tentar. Não sei desenhar quadrinhos adultos, e pronto! Vou buscar inspiração pra isso pra quê?

Claro que é sempre bom tentar, no começo, várias alternativas. Chega-se um momento, porém, que você, finalmente, se conhece o bastante pra saber que tem facilidade pra fazer algumas coisas, e dificuldade pra fazer outras. Explore as que você se identifica mais. É mais fácil encontrar inspiração pra elas.

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Inspire-se em você mesmo.
Lembre-se: você é o ser mais diferente deste mundo. Os outros são todos iguais, vestem as mesmas roupas, pensam da mesma forma (pelo menos, é assim que a gente vê as coisas pelo nosso lado). Você, porém, é... você. Toda a cultura adquirida, suas lembranças, seus momentos hilários e emocionantes de que se lembra até hoje, suas gafes, seus acertos, enfim, suas experiências são todas suas! E tudo isso pode ser aproveitado como fonte única de inspiração.

Portanto, continue sendo você mesmo na busca pela inspiração. Criei, por exemplo, um personagem advogado de nome Dr. Pacóvio. Por quê?! Oras, antes de ser cartunista, sou advogado. As reflexões e as passagens hilárias de minha vida profissional me inspiram pacas. Mutum é um garoto gozador, distraído, avesso aos estudos, artista e arteiro por quê? Por ser uma versão caricata de mim mesmo, nos tempos de moleque. Inspiração pra desenhar uma tirinha nova por dia, todos os dias, com o Mutum, pra mim é bico!

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NUNCA pare de criar. A inspiração parece entender que não está mais sendo necessária e vai ser canalizada em outras coisas que não têm nada a ver com a criatividade que você está buscando em suas artes. Vou usar um exemplo absolutamente idôneo, com toda imparcialidade: minha experiência da vida (sim! De novo!). Desenho quadrinhos desde os nove anos de idade e, aos 13, publicava tirinhas num jornal aqui da "terrinha". Depois de quatro anos nesta vida, parei de desenhar por causa dos vestibulares e diversos outros projetos.

O que aconteceu desde então? Não me surgia mais nenhuma idéia pra desenhar tirinhas! A inspiração estava toda centrada nos vestibulares, nas provas, e não queria me amolar com idéias para tirinhas. Foi só quando decidi voltar a desenhar quadrinhos com tudo é que a inspiração passou-me a ser útil em coisas mais agradáveis do que estudar - como criar personagens e historinhas pra tirinhas, claro! EXERCITE a inspiração sempre.


Enfim, não existe fórmula nem momentos apropriados pra se buscar inspiração. Ora ela nos encontra, ora a encontramos. A relação “você x inspiração” é instável e imprevisível. Mas é possível criar um “clima” pra coisa. Ler, assistir à televisão, ouvir música, conversar à toa, ler mais um pouco, se antenar com o mundo são alguns elementos que podem ajudar a criar este “clima”. E não se esqueça de traçar a inspiração assim que ela cair na “armadilha”, pra evitar fugas. A idéia bateu na cabeça? Anote-a, já! Ou use-a o mais rápido possível.